olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

desligue o celular e vá ler um livro

como odiamos a tecnologia.

a tecnologia está matando nosso relacionamento com outros seres humanos.
a tecnologia está destruindo nossa capacidade de concentração.
a tecnologia está acabando com nossa produtividade.

sério mesmo?

ainda hoje estão discutindo a morte do livro impresso. me faz pensar que as pessoas na verdade não gostam de ler, elas gostam mesmo é de papel. gostam de volumes nas estantes, pra impressionar as visitas;

(aquelas mesmas visitas que olham suas estantes e maravilhadas perguntam nossa, você leu TUDO isso?)

depois que comecei a viajar, fui aos poucos aposentando os livros impressos. primeiro, uma questão prática: livro pesa nas costas e eu tinha outras prioridades em termos de sobrevivência. ainda assim, não queria ficar sem literatura. solução: livros digitais.

segundo que livros digitais são (quase sempre) mais baratos. sem contar livros em domínio público, gratuitos. também porque edições digitais são mais fáceis de se encontrar, quando existem. quer dizer, se existem, você consegue encontrá-las. houve um tempo em que eu ficava meses, anos, atrás de um mesmo livro, esgotado ou não, importado ou não.

aí que hoje em dia as vozes ressoam em eco: desligue o celular e vá ler um livro.

e fico pensando: mas e se seu celular for o seu livro? e se ele for mais de dois mil livros em menos de quatro gigabytes de informação? se ele for seu arquivo de artigos para leitura? por que cazzo você precisa desligar o seu celular, precisamente onde estão guardadas todas as possibilidades de leitura, para… ler?

claro: celular, facebook, twitter, distrações. como se elas todas não continuassem ali ao seu lado enquanto você equilibra perigosamente uma edição em papel de Ulysses no seu colo. o pobre do celular não tem culpa nenhuma. não fosse o celular, seria a televisão. o vizinho. o amigo no telefone chamando para uma cerveja.

por que odiamos tanto nossos celulares?

os leitores digitais, com tela e-ink, são terrivelmente agradáveis aos olhos e práticos, mas às vezes me pergunto se não existem principalmente como desculpa: estou com um aparelho digital nas mãos mas veja, estou lendo, juro!

e olha: eu gosto de livro impresso pela facilidade de folhear, fuçar sem compromisso; são ótimos para uma leitura mais errática. são perfeitos quando eu não quero de fato ler o livro. se o tema for saúde, posso dizer que os piores vilões da minha tendinite são os livros pesados e os exercícios do duolingo (porque escrever no celular é de matar).

para ler, efetivamente, de cabo a rabo etc, a gente só precisa um suporte para as letras, seja ele digital ou físico.

largue esse livro e vá brincar na areia!

largue esse livro e vá brincar na areia!

ou não?

que existam críticas ao uso que fazemos dos nossos smartphones eu não duvido. mas me parece que estamos nos desviando do foco do problema por mera picuinha. a mesma picuinha que começou há uns quinze anos, mais ou menos, quando se gritava que a internet estava nos deixando mais burros, e que as crianças deveriam se ocupar de fazer buscas nas enciclopédias em vez de perder tempo no google.

talvez porque ultimamente estejamos cada vez mais viciados em propagar ladainhas para impressionar.

é dizer que não devemos cozinhar com fogo, porque fogo mata.

qual vai ser o próximo passo? desligue o seu livro e vá capinar um lote?

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