quinze de outubro, praia da Pipa, Rio Grande do Norte

Pipa não nos impressionou muito. chega um ponto na vida do lugar turístico que o turista não é mais visto como uma pessoa que visita, e sim como uma bolsa cheia de dinheiro pra distribuir por todos os lados.

Pipa talvez tenha alcançado esse ponto. o cara que te oferece passeio de barco nem parece muito uma pessoa; é mais um robô com um menu plastificado na mão, repetindo passeio de barco pra ver golfinhos sem parar. ele não te olha muito nos olhos pra não quebrar o feitiço e correr o risco de virar um ser humano. ou, imagine só, tratar você como um ser humano.

mas claro que há exceções. e você sente no olhar, na voz da pessoa que passa com um isopor na praia vendendo água ou cocada: essa ainda é gente.

estamos voltando da praia no segundo dia, meio frustrados com o que não encontramos, quando paramos em frente a um restaurante pequeno: dois gatinhos filhotes estão brincando na entrada (sempre paro quando há gatinhos filhotes brincando no caminho). pouco tempo depois cruza a rua uma mulher de uns sessenta anos e começamos a conversar. ela é carioca e saiu do Rio há uns bons anos pra morar em Natal, e há algum tempo fez o restaurante em Pipa com a filha.

eram duas da tarde quando paramos pra conversar. ficamos até umas seis, quando já está escuro e os mosquitos começam a atacar.

voltamos ao hostel com a sensação de que finalmente chegamos em Pipa, finalmente chegamos no Brasil, finalmente podemos começar nossa busca por nosso lugarzinho no nordeste. por confirmar que existe no mundo mais gente com a mesma busca, e que seguimos por um caminho possível. estamos no lugar certo.

na última noite voltamos lá pra jantar. a filha está nervosa por causa de um tipo que apareceu pra trabalhar no restaurante e só fez gerar estresse e clientes insatisfeitos. esperamos enquanto elas se ajeitam com os clientes que estavam antes; depois de comer, ela — a filha — se senta pra conversar com a gente. ficamos até mais de dez da noite. no final, trocamos contato e ela agradece por a gente ter feito ela se sentir melhor e esquecer a confusão da noite.

nenhum dos outros dias que passamos em frente ao restaurante vimos os gatinhos brincando do lado de fora. foi só aquela vez, e só naquele momento que calhamos de passar também quando a dona estava do lado de fora.

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